TRANSCLANDESTINA 3020: Com múltiplas práticas artísticas, mostra individual de Manauara Clandestina na Mitre Galeria articula migração, transmutação e redes de cuidado, projetando deslocamentos, alianças e futuros possíveis.

A Mitre Galeria apresenta a exposição TRANSCLANDESTINA 3020, de Manauara Clandestina, continuidade da pesquisa apresentada pela artista na 36ª Bienal de São Paulo. Com texto curatorial de Aldones Nino, a mostra reúne têxteis, vídeo, fotografia e objetos em torno da migração como prática de atravessamento, transmutação e construção de redes de cuidado.

O trabalho de Manauara Clandestina se desenvolve a partir da migração não como dado biográfico, mas como procedimento artístico e político. Em sua pesquisa, o deslocamento aparece como método de criação e como modo de reorganizar as condições de existência, articulando experiências individuais e coletivas, imaginação e produção colaborativa.

O filme TRANSCLANDESTINA 3020, que dá nome à exposição, funciona como eixo conceitual da mostra. A obra propõe um exercício de imaginação que busca ultrapassar fronteiras geográficas, corporais e simbólicas por meio da criação de conexões e da mobilização de coletividades. A obra integrou a 36ª Bienal de São Paulo e, na exposição, desdobra-se em um conjunto de trabalhos que aprofundam suas questões centrais.

Na exposição, a noção de transmutação se materializa a partir do upcycling, entendido não como estética da reciclagem ou moral do reaproveitamento, mas como gesto político de reorientação. Materiais classificados como resto ou descarte são incorporados às obras como suportes de continuidade, evidenciando outras temporalidades e valores possíveis, especialmente no contexto das experiências migratórias.

Entre os trabalhos apresentados estão instalações têxteis construídas a partir de uniformes de alta visibilidade e outros materiais costurados. Ao rebatizar o espaço expositivo como “Ministério Trans de Imigração”, a artista transforma a galeria em um lugar simbólico de trânsito e acolhimento, onde a costura aparece como gesto de reparo, proteção e ação coletiva.

As polaroids produzidas ao longo do processo criativo integram a mostra como registros de vínculos e presenças, evidenciando o caráter relacional do trabalho. Longe de funcionarem como documentação neutra, elas compõem um arquivo de alianças, afetos e gestos de cuidado que sustentam a construção da obra.

Ao acionar o futuro como território de passagem, na exposição TRANSCLANDESTINA 3020, Manauara Clandestina reposiciona ancestralidades travestis e pertencimentos historicamente marginalizados. Alianças e práticas coletivas aparecem, então, como caminhos possíveis para imaginar outras formas de existência.

E na Revista Philos você lê com exclusividade do texto curatorial de Aldones Nino sobre a exposição:

TRANSCLANDESTINA 3020

Em TRANSCLANDESTINA 3020, o amor não é apenas uma ideia, mas sim uma infraestrutura tangível de sobrevivência. Ele se manifesta de forma visível na maneira como a obra é criada, nos seus canais de circulação e como um elemento de sustentação para vidas que estão em constante movimento. O trabalho de Manauara Clandestina vem se consolidando como um método, onde ela entende a migração para além de um fato biográfico, como procedimento de trabalho — um modo de atravessar limites e, no percurso, refazer a si e às próprias condições de existência. Da experiência do deslocamento concreto às transições subjetivas e coletivas, a migração aparece como prática de passagem: abrir rotas, criar linguagem, construir redes. O filme TRANSCLANDESTINA 3020 é concebido a partir de um exercício de imaginação que busca transcender as fronteiras do estabelecido — sejam elas geográficas, corporais ou simbólicas — utilizando a criação meticulosa de conexões e a mobilização de coletividades como uma autêntica tecnologia de transmutação.

Nesse movimento, “transmutar” não é apenas mudar a forma das coisas, mas deslocar seus destinos. A mostra materializa essa operação por meio do upcycling — não como estética da reciclagem nem como moral do reaproveitamento, e sim como gesto político de reorientação: o que o sistema-mundo nomeia como resto, excesso ou descarte reaparece como matéria de continuidade. O upcycling funciona como uma alquimia do cotidiano: um fazer que transforma o rejeitado em suporte para novas existências. Ao recusar o descarte, ele tensiona o mito do progresso linear e revela outras temporalidades e valores possíveis nos materiais. No contexto migratório, essa operação ganha urgência: diante da escassez, o upcycling deixa de ser apenas gesto crítico e se torna ferramenta vital de sobrevivência, evidenciando que a contestação do modelo hegemônico muitas vezes já está inscrita nas práticas de quem vive clandestinamente.

A proposta em questão transcende a simples transmutação da matéria descartada, que é a essência do upcycling. Ela opera olhando mais a fundo, interessada na maneira como construímos nossa percepção, moldamos nossos desejos e vivenciamos o mundo. Por isso, seus trabalhos nos convidam a exercitar a percepção de mundos possíveis pela ótica do amor e da conexão comunitária. O cerne da questão não reside na concepção de uma utopia impecável, mas sim na manutenção da capacidade de conceber alternativas precisamente no momento em que a realidade insiste em se sobrepor ao domínio do sonho.

TRANSCLANDESTINA 3020 é um expresso para o futuro, funcionando como um dispositivo de passagem concreto para cidades onde a vida trans floresce. Mais do que uma promessa abstrata, o passaporte para este expresso é um artefato essencial que garante o deslocamento em um mundo que tenta impedí-lo. Com ele, Íca Nishimoto alcança a possibilidade de transitar entre mundos, escapando de regimes de violência e precariedade em direção a um ‘lugar outro’.

As polaroids realizadas durante o processo criativo evidenciam a natureza profundamente relacional deste trabalho. Longe de funcionarem como registros neutros, elas constituem um arquivo de presenças e vínculos: fragmentos de tempo compartilhado em que a obra se constrói no “entre” — nas alianças, nos atritos e, sobretudo, nos gestos de cuidado que sustentam a constância. Nesse conjunto, aparecem também as forças que amparam a travessia de Manauara: a presença dos seus pais biológicos, o companheirismo do marido, Bernardo Bessa, e a rede de afetos forjada com amigas-irmãs como Camila Ribeiro e Ica Nishimoto.

Rebatizando a galeria como “Ministério Trans de Imigração”, o espaço expositivo se torna local de trânsito e acolhimento. A técnica de transmutação é central nas instalações têxteis, onde uniformes de alta visibilidade e diversos materiais costurados convertem o descarte em um suporte de persistência — a costura atua como reparo, proteção e um gesto comunitário. Através dessas operações de costura e transmutação material, o conjunto de obras concebe a migração como uma prática coletiva que reafirma a vida como uma rede e um futuro em constante construção.

A pesquisa de Manauara Clandestina se fundamenta na premissa de que sobreviver vai além de apenas resistir ao colapso: implica trilhar ativamente novos caminhos no meio dele. A obra foca na produção de redes, gestos e alianças que sustentam a vida em meio às fissuras do sistema vigente. O essencial para a vida está no centro: o amor manifestado nas articulações comunitárias, a solidariedade gravada em uniformes transformados e o contínuo ato de abrir passagens onde antes existia apenas interdição.

A ARTISTA

A prática de Manauara Clandestina mobiliza performance, vídeo, fotografia, figurino e objetos para construir uma poética marcada pelos deslocamentos e reinvenções. Suas obras partem de experiências pessoais e coletivas para elaborar crônicas sobre a travestilidade em suas múltiplas dimensões — como identidade, existência política, e fabulação radical. Filha de missionários evangélicos, iniciou suas práticas artísticas ainda na infância, nos cultos pentecostais da igreja. Esse atravessamento entre espiritualidade, rito e representação persiste em sua obra, que opera numa chave íntima e simbólica, entre a rua e o altar, o corpo e a câmera, o desejo e a denúncia. O nome que adota como artista já anuncia as forças que orientam seu trabalho: Manauara evoca o território de origem e a travessia; Clandestina aponta para as violências do apagamento identitário, mas também para a força criativa da migração e do trânsito. Em suas obras a artista combina tecnologia e precariedade, roteiro e espontaneidade, documento e ficção, construindo narrativas que conectam afirmações subjetivas, cultura marginal e laços afetivos em meio às contradições da sociedade contemporânea. Ao remixar materiais — como quem reconfigura elementos encontrados para criar novos trajes —, Manauara Clandestina transforma os resíduos em linguagem para transitar entre mundos e fabular outras formas de existência.

Suas mostras individuais incluem: “Sala de Vídeo: Manauara Clandestina” (2024, MASP – Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, São Paulo – Brasil), “Saltação” (2021, Casa70, Lisboa, Portugal) e “Pitiú de Cobra” (2021, Delirium, São Paulo – Brasil). Participou de importantes exposições coletivas como: “Encruzilhadas da Arte Afro-Brasileira” (2025, CCBB Salvador – BA; 2024, CCBB Belo Horizonte – MG; 2023, CCBB São Paulo – SP), “Foreigners Everywhere” (2024, 60ª Bienal de Veneza, Veneza – Itália), “Composições para tempos insurgentes” (2024, MAM Rio – Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro – Brasil), “1ª Bienal das Amazônias” (2023, Belém – Brasil), “El tiempo es una ilusión” (2023, Collegium, Arévalo – Espanha), “Festival Internacional de Cinema de Edimburgo” (2022, Edimburgo – Escócia) e exposição coletiva no IAB-SP – Instituto de Arquitetos do Brasil (s/d, São Paulo – SP).

Mitre Galeria apresenta TRANSCLANDESTINA 3020, de Manauara Clandestina.

A Mitre Galeria, fundada em 2023 por Rodrigo Mitre, surge com o compromisso de contribuir para um imaginário social diversificado e efervescente no Brasil, e com a firme crença na prática artística como um motor chave para a transformação positiva do indivíduo e da sociedade. A galeria vem articulando propostas que ativam o cenário das artes contemporâneas em Minas Gerais, no Brasil e além, com um grupo de artistas de diferentes gerações, formações e práticas. Com um programa baseado em invenções estéticas que mudam perspectivas, provocando um reexame do passado e da imaginação do futuro, ao mesmo tempo que nos ancoram nas questões do presente, Mitre reafirma a sua busca por iniciar ações instigantes que nos conduzam ao desconhecido, abraçando o mistério como uma força vital. O ano de 2023 consolida a projeção global da galeria com a participação em importantes feiras e exposições. Entre elas, a exposição individual de Marcos Siqueira na Frieze, em Nova York, e a presença de destaque das artistas Luana Vitra na 35a Bienal de São Paulo e Isa do Rosário na Bienal de Liverpool. Em 2024, a galeria participou pelo segundo ano consecutivo da Frieze NY com um estande solo do artista davi de jesus do nascimento. Em 2025, a galeria inaugura sua sede em São Paulo, no bairro dos Jardins, reafirmando sua presença no cenário artístico brasileiro. O novo espaço nasce com o propósito de ampliar o alcance de seu programa, conectando-se de forma mais direta com novos públicos. No mesmo ano, a galeria participa de importantes feiras internacionais, como Frieze New York, EXPO Chicago e Frieze London, consolidando sua atuação no circuito nacional e expandindo sua projeção global.


SERVIÇO: Exposição TRANSCLANDESTINA 3020 de Manauara Clandestina com curadoria de Aldones Nino, na Mitre Galeria. R. da Consolação, 2761, Jardins, São Paulo, SP, 01416-001, Brasil. Período expositivo: de 5 de fevereiro a 14 de março de 2026, de segunda a sexta-feira, das 10 às 19h; sábados, das 10 às 16h. Entrada gratuita.

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Publicado por:Philos

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